Você sabia que o icônico romance Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, não surgiu apenas da imaginação do autor, mas foi inspirado em uma expedição real pelo sertão mineiro em 1952? Nessa jornada épica de boiadeiros, um dos vaqueiros que assumia o papel de cozinheiro da tropa era o lendário Zito – ou João Henrique Ribeiro, um homem do campo, poeta e guia habilidoso, que travou contato próximo com o próprio Guimarães Rosa durante a travessia. E aqui vai o toque pessoal e fascinante: Seu Zito é nada menos que o irmão mais velho da minha mãe! Nascidos no coração do sertão de Minas Gerais, eles cresceram imersos nas paisagens áridas e nas tradições rurais que tanto influenciaram a obra de Rosa. Cheios de histórias autênticas do campo – de tropeadas intermináveis a noites sob o céu estrelado –, eles representam o espírito vivo do sertão que pulsa nas páginas do livro. Essa conexão familiar transforma a literatura em algo palpável, provando que as veredas de Guimarães Rosa ecoam nas vidas reais de mineiros como nós. Uma verdadeira ponte entre ficção e herança cultural

Detalhes sobre Seu Zito: O Vaqueiro que Inspirou Guimarães Rosa

Seu Zito, cujo nome completo é João Henrique Ribeiro, é uma figura icônica ligada à expedição de boiadeiros realizada por João Guimarães Rosa pelo sertão mineiro em maio de 1952. Essa viagem, que durou cerca de 10 dias e inspirou diretamente obras como Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile, contou com Zito como um dos principais companheiros do escritor. Nascido no sertão de Minas Gerais, assim como você mencionou ser o irmão mais velho de sua mãe, ele representava o autêntico homem do campo: mineiro raiz, cheio de histórias rurais, versos improvisados e sabedoria prática sobre a vida nas veredas áridas. 

Papel na Expedição

Zito atuou como guia e cozinheiro da tropa. Ele ia à frente da boiada, tocando o berrante para orientar os bois e mantendo conversas constantes com Guimarães Rosa. Durante toda a jornada, respondia às inúmeras dúvidas do escritor sobre o sertão, suas tradições, dialetos e desafios cotidianos. Rosa o considerava o “mais esperto” entre os vaqueiros, servindo como uma fonte primordial para suas anotações – que mais tarde se transformaram em elementos literários. A expedição envolvia o transporte de cerca de 360 bois grandes, partindo da Fazenda Sirga (próxima a Andrequicé, distrito de Três Marias, MG) em 19 de maio de 1952, com uma festa de despedida. O percurso cobriu mais de 40 léguas, passando por locais como Fazenda Tolda, Catatau, Riacho das Vacas, Meleiro, Barreiro do Mato, Fazenda Ventania do Juvenal, Riacho da Areia, Fazenda do Dr. José Saturnino, Cordisburgo, Toca do Urubu (onde encontraram repórteres da revista O Cruzeiro) e chegando a uma fazenda perto de Araçaí (MG). Participaram cerca de 8 ou 9 vaqueiros, incluindo nomes como Manuelzão (chefe da tropa e inspiração para personagens de Rosa), Tião Leite, Santana, Sebastião de Jesus, Gregório, Bindéia, Aquiles (um bom violeiro) e um rapazinho de 12 anos. 

Antecedentes Pessoais

Aos 74 anos, em uma entrevista concedida à Revista Cult em Três Marias (MG), Zito se descrevia como um vaqueiro experiente, mas com a memória afetada por uma doença recente. Apesar disso, era um leitor voraz: sabia muitos livros de cor e mantinha o hábito de registrar versos poéticos sobre o dia a dia. Durante a viagem, escrevia esses versos à noite, ao redor da fogueira, e os anotava nas cadernetas de Guimarães Rosa – hoje arquivadas no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. Sua família, enraizada no sertão mineiro, compartilhava o amor pelas histórias do campo, cheias de tropeadas, noites estreladas e desafios da vida rural. Como irmão mais velho de sua mãe, ele carrega esse legado familiar de mineiros autênticos, que você destacou na curiosidade que escrevemos juntos. 

Anedotas e Histórias Compartilhadas

Zito contava com humor sobre a viagem: quando os assuntos acabavam, ele “inventava bobagens”, como falar de mulheres e moças bonitas, só para manter a conversa fluindo – e Rosa anotava tudo! Ele ria ao lembrar que o escritor adorava versos, mas não os memorizava. Muitas das narrativas de Zito foram incorporadas às obras de Rosa, confirmando que o autor “escreveu tudo” baseado no que ouvia dos vaqueiros. Em depoimentos, Zito relembrava a camaradagem noturna, as fogueiras e como a expedição misturava trabalho árduo com momentos poéticos. Há menções a cenas específicas, como uma com um tucano, que Zito ajudou a descrever, tornando-se uma das mais belas em relatos de Rosa.  Essa conexão entre Zito e Guimarães Rosa não foi apenas profissional: transformou-se em uma ponte entre a vida real do sertão e a literatura brasileira, ecoando nas páginas de Grande Sertão: Veredas. Como familiar seu, ele simboliza esse amor incondicional pelas raízes mineiras que você valoriza tanto.

Versos de Zito na Expedição de 1952

João Henrique Ribeiro, o Seu Zito, foi uma figura central na expedição boiadeira de maio de 1952 pelo sertão mineiro, atuando como guia, cozinheiro e companheiro constante de João Guimarães Rosa. Durante a viagem, que inspirou obras como Grande Sertão: Veredas, Zito tinha o hábito de escrever versos todas as noites, após o trabalho com a tropa. Sentado à beira da fogueira, ele registrava em um caderno escolar os eventos do dia, transformando a rotina árdua dos vaqueiros em poesia simples e autêntica, com caligrafia arrastada e frases diretas. Esses versos narravam o cotidiano da jornada – como o movimento da boiada, as paradas em fazendas, as conversas e os desafios do sertão – e eram frequentemente compartilhados com Rosa, que os anotava em suas próprias cadernetas. Infelizmente, os versos originais de Zito não são amplamente publicados ou disponíveis em fontes online acessíveis. Eles estão preservados nas cadernetas de viagem de Guimarães Rosa, arquivadas no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, em São Paulo. Pesquisas em entrevistas, artigos e relatos (como o depoimento de Zito à Revista Cult em 2001) confirmam a existência desses escritos, mas não incluem transcrições completas ou citações verbatim. Zito mencionava que escrevia sobre "o que passava no dia" e que Rosa anotava tudo, mas ele próprio ria ao lembrar que inventava "bobagens" para manter as conversas fluindo, como histórias de mulheres ou detalhes da natureza.

Exemplo de Verso Coletado na Expedição

Embora não atribuído exclusivamente a Zito, uma quadrinha (verso popular em quatro linhas) foi recolhida por Guimarães Rosa durante a viagem, entre os vaqueiros da tropa – possivelmente inspirada ou compartilhada por Zito, dado seu papel como poeta do grupo. Ela captura o espírito da vida sertaneja e aparece em Ave, Palavra (p. 114), um livro de Rosa com anotações e recolhimentos da expedição:

Meu cavalo é minhas pernas,
meu arreio é meu assento,
meu capote é minha cama,
meu perigo é meu sustento.

Essa quadrinha reflete o dia a dia dos vaqueiros: a dependência do cavalo, o uso prático dos equipamentos e a aceitação do risco como parte da existência no sertão. É um exemplo típico do tipo de poesia oral e improvisada que Zito e os outros produziam, misturando humor, sabedoria rural e observações da natureza.